Talvez você já tenha se pego, no meio de uma noite maldormida ou no meio de um dia qualquer, tentando entender por que a sua mente insiste em antecipar um perigo que ainda não aconteceu. Se isso soa familiar, talvez exista, por trás dessa inquietação, uma pergunta que ainda não foi escutada.
A pergunta que a ansiedade tenta responder
Quase sempre, quando alguém me procura falando sobre ansiedade, a primeira pergunta que aparece é: como faço para que isso pare? Entendo essa pergunta. Ela nasce do cansaço de viver com um corpo em alerta constante, de um pensamento que não descansa, da sensação de que algo ruim está prestes a acontecer, mesmo quando nada, de fato, está acontecendo.
Mas essa pergunta, por mais legítima que seja, quase sempre afasta de algo mais importante. Porque a ansiedade não é a origem de nada. Ela é uma resposta.
E se é uma resposta, existe uma pergunta que a antecede, formulada pela consciência, várias vezes ao dia, sem que a pessoa perceba: e se eu não conseguir dar conta? E se eu falhar? E se a outra pessoa desistir de mim? A ansiedade aparece exatamente onde essas perguntas não encontram resposta. Como a consciência não suporta permanecer num vazio, ela ocupa esse espaço com antecipação: começa a viver o futuro antes que ele aconteça, tentando se preparar para algo que ainda nem existe.
Por que tentar fazê-la parar quase nunca funciona
A maior parte das tentativas de lidar com a ansiedade está voltada para o sintoma: respirar diferente, criar rotinas de controle, afastar pensamentos, ocupar a mente para não parar. Tudo isso pode aliviar por um tempo. Mas nenhuma dessas estratégias chega até aquilo que sustenta a ansiedade, porque nenhuma delas pergunta o que ela está realmente tentando resolver.
O que, em mim, está tentando ser protegido agora?

O que a ansiedade costuma proteger
Ao longo da prática clínica, fui percebendo que a ansiedade quase sempre aparece onde existe uma responsabilidade que a pessoa não sabe mais como carregar sozinha. Às vezes é a responsabilidade pelo bem-estar de outras pessoas. Às vezes é não decepcionar, não errar, dar conta de tudo o que foi acumulado. Em algum momento da história, aquela pessoa aprendeu que só existe segurança quando tudo está sob controle. A partir daí, qualquer sinal de imprevisibilidade passou a ser interpretado como ameaça. E a vida, sabemos, nunca foi controlável.
Toda ansiedade também é uma forma de cuidado, ainda que distorcida. Ela nasceu como tentativa de evitar uma dor já sentida antes: a criança que só era vista quando dava conta de tudo, o adulto que aprendeu que só era amado enquanto fosse útil, a pessoa que aprendeu que confiar significava se expor a ser magoada de novo. Com o tempo, essa forma de se proteger deixou de ser percebida como proteção e passou a ser confundida com a própria personalidade. "Eu sou assim, ansioso." Como se fosse uma característica definitiva, e não uma resposta aprendida diante de experiências específicas.
Importante
Este texto tem finalidade reflexiva e não substitui avaliação profissional. Ansiedade persistente, crises frequentes ou sintomas físicos intensos merecem também avaliação médica. Se você estiver vivendo um sofrimento muito intenso, o CVV oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia.
O que a psicoterapia investiga
Não escrevo isso para dizer que a ansiedade não deve ser cuidada, tratada, acompanhada. Deve. Mas cuidar dela também é compreendê-la, e não apenas suprimi-la, porque um sintoma silenciado sem ser compreendido, cedo ou tarde, volta a se manifestar. A psicoterapia não trabalha para eliminar a ansiedade, mas para compreender o que ela protege, que responsabilidade está sendo carregada sozinha, que experiência antiga ainda está sendo evitada.
Isso não acontece de uma vez, nem por esforço. Acontece devagar, na medida em que a pessoa consegue observar a própria ansiedade sem tentar imediatamente calá-la.